O que é patrimônio?
Tirando leite de pedra

Da última vez, minha cara habitual de paisagem não convenceu. O agente da alfândega do aeroporto de Lisboa inclinou a cabeça, indicando que eu me dirigisse à área de inspeção, e perguntou o que eu levava na mala. “Artesanato, roupas, coisas de casa”, respondi, meio evasivo, em vez de “um pote de maniçoba, dois quilos de feijão-verde, uma peça de carne do sol e um vidro sem rótulo de geleia de cambuci”, o real conteúdo do meu farnel particular. Questionou se eu vivia aqui e o que fazia, e quando falei do doutorado em patrimônios alimentares, sua cara logo revelou o rotineiro espanto.
Patrimônios alimentares?!, ele devolveu, convertendo a desconfiança em curiosidade. “Sim… São os estudos dos saberes-fazeres, das tradições gastronômicas das regiões”, expliquei inseguro, recorrendo a termos que sabia lhe soariam imediatamente familiares. Ele assentiu com certa névoa de dúvida, mas me deixou passar sem revistar nada. Alívio.
Nessa entrevista, Ailton Krenak desfiou uma ideia a que subscrevo em absoluto: o corte ocidental entre o humano e a natureza, tornando-a recurso e patrimônio, falam sobre o jeito dos humanos de administrar o mundo, “o que é de uma pretensão escandalosa”. O patrimônio de que fala carrega a concepção capitalista de posse (uma fazenda ou um rebanho são patrimônios), mas não encerra todos os sentidos que a palavra pode guardar.
O mini Aurélio editado em 2000, dicionário gasto de capa azul que me acompanha desde o ensino fundamental, define assim patrimônio, substantivo masculino: 1. Herança paterna. 2. Bens de família. 3. Riqueza. Verdades parciais, mas insuficientes. Sobretudo se alargarmos tais sentidos, considerando que herança ou riqueza não se restringem ao que é concreto ou de ouro. Também abraçam aquilo que, embora imaterial, transborde valor simbólico, pessoal, afetivo. E o que dizer do paterno se situado no Brasil, onde mais da metade dos lares são chefiados por mulheres? E em 96% deles, o trabalho culinário permanece feminino?
Ainda ancorada no que é material, a ideia de patrimônio cultural ganha força primeiro na França do século 18, em estátuas e monumentos históricos legitimados pelas elites, sob forte inspiração nacionalista. Moveu-se, um século depois, ao patrimônio natural, reconhecendo a importância de preservar a natureza que ainda não destruímos, como reservas florestais e conjuntos de cascatas, e só mais um século adiante ao intangível ao qual dedico meu estudo: os conhecimentos e as práticas culturais em que as pessoas são o centro, a parte mais importante.
Nos termos da cultura, patrimônio não é um lustre de cristais, um carro do ano ou uma casa para morar. É algo bem menos ilustre e palpável, feito muitas vezes do que é comum, cotidiano, frugal. É aquilo cujo valor não se mede em moeda e está ligado a quem veio antes de nós. Um patrimônio que mobiliza sentimentos, emoções, relações, e que precisa ser reconhecido e valorizado por aquele grupo para assim ser considerado. Transmitido para seguir existindo. Passado adiante, ainda que sempre modificado. Patrimônio vivo, e que, no caso alimentar e familiar, não mora nas páginas fixas de uma receita anotada, mas no fogo aceso de quem hoje a refaz.
Longe de ser uma palavra de pedra, patrimônio é o espelho onde um povo se reconhece. O que levanta sua moral, demarca sua identidade, o conecta ao passado, tirando-lhe a poeira e dando-lhe posição de destaque. E pode ter esse nome burocrático, que nos lembra os órgãos, leis e chancelas, mas também significa algo muito íntimo e nada institucional: o colo de tudo aquilo que nos é casa. Uma palavra de leite.


e o patrimônio imaterial, afetivo e simbólico é tão maior do que o material...
Que lindo.