Vestibular
Dias concretos
Quando viu a fachada vermelho-paixão da escola municipal, lembrou de tudo. Mal abrira os olhos naquele domingo de folga e tinha recebido a foto de seu sobrinho indo fazer o vestibular. Primeira fase da UERJ, a Estadual do Rio de Janeiro, por onde Norma passava todos os dias pelo menos três vezes, como motorista da linha 455.
Dividindo a ansiedade com a irmã, se inteirou de como andava o processo hoje em dia. Muito estranho, tudo diferente, Norminha. Pode entrar com celular? Que ninguém hoje desgruda do celular? Pode, mas entra desligado, na base da confiança. Não podem usar nada com capuz. Por causa dos fones sem fio, devem mostrar inteiramente as orelhas durante todo o tempo de prova. O sobrinho queria engenharia, mas naquela fase, as páginas forradas só de questões de múltipla-escolha o tachariam por uma letra: A, B, C ou depois disso nem dava sorte falar.
De seus dias tão concretos, o primeiro respiro era a saída do túnel do Rio Sul, quando via o mar pela primeira vez. Depois, ao longo de toda a Barata Ribeiro até o ponto final no Arpoador, quando entre as ruas a água que reinava em sua cabeça voltava a encher-lhe também a vista.
Falando do seu ofício, lapidado no fio de mais de vinte anos, ela dizia o mesmo: ser motorista de ônibus no Rio é a profissão mais difícil do mundo. Motorista hoje em dia tem que ser tudo. Cobrador, psicólogo, psiquiatra, separa-briga, piloto de fuga, guia de turismo, um mapa ambulante da cidade. E ainda tem que ser humano, profundamente humano, lidando o tempo todo com sua própria consciência diante do super-poder que é poder levar alguém a um lugar onde se precisa chegar. Dirigir um veículo de quinze metros de comprimento e aguentar o trânsito pesado nas piores horas do dia vira quase um detalhe.
Era exatamente o que sua avó dizia, mas do seu posto de mãe de santo. Sumidade no sagrado maranhense, Doné Terezinha de Lissá, sacerdotisa de candomblé jeje, era Oxalá na terra na hora de ouvir seus filhos e consulentes. Dizia que a maior dificuldade da missão que abraçou era também essa: ter embutida na liderança espiritual a responsabilidade de guiar a vida das pessoas. Assim como Norma hoje fazia.
Ainda que não tenha procurado uma casa desde que chegou ao Rio, primeiro porque não teve tempo, depois porque se acostumou a viver sem ele, Norma cultuava os orixás e voduns quando desejava algo fundo. Não contaria à irmã, obreira da Universal, mas, naquela tarde, mexeu firme um abobó. Suspenderia às Avejidás, voduns do movimento, pelo sucesso do sobrinho no vestibular. Com ele, sabia que a sorte ia virar.



Muito bom esse paralelo dos "guias de vidas". Bem RJ, bem Brasil, bem humano!
Maravilhoso!!! 👏👏amo crônicas uma observação da vida e do cotidiano tão reais que voltei no tempo e nunca havia pensado no lado humano do ir e vir e das pessoas que nos conduzem como agentes ativos do nosso destino.
1978, terreiro da tia Bajá defumando e benzendo meu cartão de inscrição do vestibular em papel, confesso q fiquei apreensiva c a brasa,o guia q defumava estava de olhos fechados e disparou “ tem que ter fé, confiar, nao ficar com medo… fechei os olhos e me entreguei à benção dos orixás. Deu certo, aliás deu muito certo!