Comida feia
Nos olhos de quem vê
Tenho engolido com o almoço a ideia de comida feia. Não estragada ou insossa, mas tida como feia, incapaz de encher os olhos de alguns. A maniçoba, presente na minha memória desde sempre, é emblemática no assunto. Lembro dos mais remotos outubros, quando íamos para Belém passar o Círio de Nazaré. Equilibrada em uma banqueta de plástico, minha tia Eliane mexia a panela alta de alumínio onde fervia lentamente a mistura à base da maniva, a folha da mandioca, ao fim de sete dias completamente desfeita.
Verde-escura como lodo, carregada das mesmas carnes da feijoada, a maniçoba cobria o arroz branco no prato, onde ainda cabia a farinha d'água e umas pimentas de cheiro amassadas com o garfo. Servida fumegante apesar do calor amazônico, era a antítese de uma comida considerada bonita. Meu olhar estrangeiro concordava. Meus parentes de Belém, ao contrário, brilhavam os olhos diante da panela. Suas bocas salivavam enquanto o suor escorria.
Meses atrás, em um restaurante de cozinha oeste-africana em Paris, provei da mesma estranheza. Comi um delicioso foutou banane, massa lisa e elástica de banana-da-terra e mandioca cozidas e piladas, central na cozinha da Costa do Marfim. Podia vir acompanhado do molho saka-saka, também feito da maniva (e chamado de quizaca, em Angola), do arachide, feito com pasta de amendoim (aparentada ao caldo de mancarra, da Guiné-Bissau) ou do graine, um molho encorpado e complexo preparado com o fruto do dendezeiro (a banga soup nigeriana). Nenhum frufru. Apenas o foutou e o molho. Antes de mergulhar os dedos, tentei tirar uma foto, depois outra. Nenhuma parecia suficientemente boa.

Densos e untuosos, os molhos africanos pareciam compartilhar a mesma estética da maniçoba: a da transformação. Um preparo em que os ingredientes fundem-se até se tornarem irreconhecíveis, dando lugar a uma mistura de sabor concentrado, profundo, digno dos pratos em que o protagonista é o tempo.
Não à toa devem ser comidos com as mãos, em família, importando mais a experiência tátil e coletiva do que o aspecto visual individual. Receitas que alimentam o corpo, a memória e a identidade, ignorando solenemente o dever moderno de agradar o que se vê.
Evidente que a culpa não é da comida, mas do jeito como aprendemos a olhar para ela: a partir de uma lente ocidental, em grande parte colonizada pela alta cozinha francesa. Um código estético em que o prato deve exibir seus ingredientes, preservar contrastes e demonstrar equilíbrio e refinamento, como numa composição artística em que nada parece estar fora do lugar.
No Brasil, a comida de panela nunca pediu licença para existir, alimentar e emocionar. Ainda assim, quando penso em comida bonita, me vem à cabeça o empratamento delicado de um restaurante contemporâneo. Preciso pensar duas vezes, limpar os óculos de dentro. Lembrar como acho lindo um prato cheio de comida caseira, cotidiana, fresca, substanciosa. Comida feita para ser comida, não contemplada ou transmutada em símbolo de nada. Sarapatel, feijoada, maniçoba, galinhada, caruru, mujica de peixe e meu almoço de ontem: moqueca de andu.






comida tem que ser gostosa! até porque, como diz o ditado, “quem ama o feio, bonito lhe parece”. 😅
Eu adoro de todo meu coração maniçoba. Caruru figura sem dúvida nenhuma nas minhas top 3 comidas. Acho o caldo de ovos maranhense maravilhoso. Mas minha comida "feia" favorita, em primeiro lugar, é o polêmico cuscuz paulista, apesar da minha receita ser vegan (acho uma enorme melhoria). É impossível um bolinho de milho com legumes e molho de tomate feito na mão sem aditivos não ser sublime ❤️