Salada de frutas
Espantando a monotonia
Uma vez por mês, quando voltava das compras no sacolão, minha sogra fazia salada de frutas, meu marido me contou, lembrando sua infância. Ela dizia que era o jeito que encontrava de fazer os filhos comerem melhor. Docinhas e bem escolhidas, descascadas e picadas, o suco de laranja envolvendo tudo, não haveria desculpa para que implicassem com aquilo. Ele gostava, mas preferia no dia seguinte, quando as frutas estavam curtidas na acidez do caldo, ainda mais suculentas.
Lá em casa, a presença era menos regular, mas quando havia, era sempre servida em um jogo de vasilhas de vidro rosado, usado quase unicamente para esse propósito. A nave-mãe, onde a salada repousava, e suas cumbucas-filhas, onde comíamos. Nessas e em todas as outras que já cruzaram meu caminho (leia-se casas de sucos, ambulantes de praia, cafés de hotel, lanches de hospital), a combinação era sempre igual, com poucas variações.
Apesar da nossa gigantesca biodiversidade, predominam as mesmas frutas em uma espécie de complexo básico único: o mamão, a manga e a banana, tropicais apesar de não serem nativas, têm a maciez interrompida apenas pela crocância da maçã. Nunca um naco de caju. Jamais um bago de acerola ou pitanga. Sequer um charminho em forma de folha de poejo ou hortelã.
Por que não driblamos a monotonia e convocamos as tantas outras frutas que rompem o chão do Brasil? A cada página do calendário, nossa salada de frutas mudaria junto. A de verão teria sempre as carambolas mais lindas, as mangabas e goiabas mais doces. No outono, jambos e caquis. A cada inverno o reinado das laranjas e morangos, e na primavera multicor, jabuticabas e melões. Ensaiaria combinações para todo ano e não sairíamos daqui. E nem falei da vocação de cada região.
Quando esbarrei, em Portugal, com a salada de frutas que abre esse texto, os olhos tentavam entender o que se passava dentro da boca. Tudo era da época, todas de cultivo nacional. Fui rastreando a textura de cada cubinho se desfazer entre os dentes de trás. O ananás dos Açores, de polpa mais firme e compacta que os nossos abacaxis, mais doces e menos ácidos nessa altura do ano. O kiwi e a pera, originais da Ásia, mas cultivados largamente em terras lusas. Laranjas do Algarve, a fruta mais plantada do país; bananas da Ilha da Madeira, pequenas e perfumadas, no auge da safra entre junho e outubro. Folhinhas de manjericão destacadas na hora do vaso de barro. E as cerejas do bolo, que não eram propriamente cerejas, mas um punhado de amoras gordas e pretas, decorando tudo como graúdas pérolas negras. Na última colherada, o gosto exato daquele tempo e lugar.





Detesto salada de frutas. Acho que tanta mistura culmina num resultado esvaziado, sem identidade. Mas essa versão portuguesa mexeu comigo. Talvez tenha sido o teu texto mesmo! Maravilhoso, pra variar.
Quando era criança, comia salada de frutas feita pela minha mãe. Não tinha morangos porque eram caros. Hoje, adulta, encho de morangos, especialmente pq no hemisfério norte é mais fácil achar com bom preço. Viva a abundância das frutas!