Verão da alma
O humor da nova estação
O verão europeu coincide com o início do inverno no Brasil. A inversão não é surpresa; engraçado é sentir na pele. Domingo passado, primeiro dia das novas estações, enquanto afundava meu corpo nas águas frescas do rio Zêzere, no Centro de Portugal, recebia notícias de um Rio de Janeiro vestido de lã.
Depois de almoçar um peixe de água doce grelhado com migas e arroz de tomates, chegou da minha mãe a foto do único café da manhã possível: uma tigela repleta do mais grosso mungunzá. Reconfortante e irremediavelmente junino. Macio e quentinho só de olhar. O cheiro da canela atravessando a tela do celular.
Não explico por desejo. Eu mesmo não queria edredom e mungunzá. Bastava aquilo diante de mim: o sol torando, a pele à mostra, o almoço na varanda de vento incessante do restaurante. O morango que deixa rastro de perfume na cozinha. O pêssego maduro escorrendo pelo queixo. As andorinhas zanzando pra lá e pra cá.
O desejo é de esticar o sol. A estrela de fogo da qual um dia enjoei por nunca faltar na minha terra e cuja ausência agora pesa durante o resto do ano, quando deixa de comparecer para dourar outros mundos. Guardo a manteiga na geladeira, bato chinelos na escada, sondo o ponto dos figos. Sinto expandir o corpo e a alma: é verão fora e dentro de mim.






Não há alegria maior que o verão!!! Lindo texto, como sempre!
o que eu mais invejo do verão europeu é o dia claro até bem mais tarde, que não tem no nosso verão do rio.