Comida é caminho
Saudade rosa e com espinhos
Na alegria ou na tristeza. Na saúde ou na doença. Na dor ou na beleza — a comida viaja. Tem sido assim durante toda a história da humanidade: quem muda de lugar leva sua comida, seu modo de cozinhar e de comer. Nos melhores casos, vão ingredientes e apetrechos; em outros, a substância quente da memória, combustível de adaptações. Nas migrações mais remotas, nas travessias do horror transatlântico, nos êxodos rurais e urbanos, nas fugas da guerra e da fome, nas diásporas do nosso e de outros tempos. A despeito de tudo, quando alguém se mexe, a comida vai junto. Vai dentro de nós, na gaze fina que tece a nossa identidade no seu fiapo mais íntimo. Imediata ao que somos, nos dando rumo e sentido, é ela o que nos faz inteiros, ainda que partidos em mil pedacinhos.
Eu imaginava. Lá em casa, sempre fomos dados às matérias do comer e cozinhar. Imaginava, mas morando em Portugal, ficou ainda mais roxo o que sinto por ser do Brasil nesse domínio entre comer e lembrar. Viver aqui e ser de lá me mostra isso sem rodeios, repetidamente e com intensidade, toda vez que volto ou que algum prato, mesmo de longe, me pega de jeito e me faz voltar. É fácil saber, nosso rosto nos entrega enquanto comemos. Sou isso: o mate com maracujá e o pastel de carne do Baby Lanches. Sou isso: a rabada com agrião da Mara, a roupa velha da Lene, o cuscuz do Agê e o feijão da Drica. Sou isso: enroscado no que comi enquanto vivi nem sem saber quem eu era. Não que hoje eu saiba.
Cristalina, a sensação que se instala não deixa cisco de dúvida. Dá pra sentir, quase tocar, a alma que andava penada e perdida baixando de volta pro corpo. Um corpo cansado de perambular que acha seu lugar num sofá de nuvem e senta. Felicidade. Encaixe. Sublime o que acontece quando a boca encontra o que não come há tempos, do que muitas vezes se esquece, e quando a saliva antecipa, o corpo inteiro atende.
Nos casos mais graves os olhos desatam em água, os cabelos do braço arrepiam. A central do controle total estoura a barragem das memórias represadas, a máscara cai e o baile flui: estamos nus, nós e a nossa comida, aquele sentimento tão forte capaz de nos revelar, na virada de um segundo, completamente a quem somos ou fomos. Não é preciso estudar sobre isso ou ao menos saber que isso é matéria de estudo. Todo mundo come, e até na escassez, muitas vezes mais que na abundância, a comida é leme do corpo-memória, qualquer seja o trajeto. Esse é o poder sem capa de um sequilho de goma. De um bombom de cupuaçu. De um pote daquela manteiga.
Há também o efeito reverso: certas coisas que nos afastam exatamente porque nos lembram do que preferimos esquecer. A carne de lata, o mingau de cachorro, a piabinha frita e até o capitão de feijão, meu objeto de devoção, se recordam os já superados tempos difíceis, nos fazem querer passar longe. De todo modo, o que comemos segue bulindo com a gente.
Tenho sido prova disso por toda a vida. Filho de migrantes aclimatados em terras distantes das suas, assisti, desde o dia em que rasguei no mundo, as idas e vindas de onde minhas famílias partiram. Pai Bahia e mãe Pará. Sou testemunhocular da corrente de impulsos desejosos por uma cuia de tacacá, um vatapá de pão, um naco frito de requeijão de corte. Conheço a cara do aniversário que só seria feliz se terminasse com uma travessa de sorvete de abacate feito em três camadas, minha mãe honrando a sua. Cresci achando normal, nos voos que partem de Belém, ver a esteira de bagagens bem mais cravejada de isopores brancos que de malas de roupas ou outros pertences.
Tratados com a importância de um baú do tesouro, as caixas térmicas que produziam aquele ruído característico quando roçadas umas contra as outras não guardavam moedas douradas ou colares de pérolas, mas jóias de valor bem superior: açaí grosso, tucupi fresco, pimentinha e maniçoba. Deixá-los para trás, como esquecer da carteira de identidade, motivo o suficiente para não conseguir embarcar.
Abastecê-los com pressa, minutos antes de sair de casa, o viajante vestido com a roupa de ir, era o lugar-comum de todas as nossas despedidas. O isopor envolvido com esmero em fita crepe marrom, colada em golpes rápidos no chão da cozinha. A fita ia avançando sobre o isopor que girava, esticada com a firmeza de quem fecha uma múmia, fazendo o som da palavra que performava: lacrar, lacrar, lacrar.
Outras vezes a provisão ia na mala mesmo, sem carecer de refrigeração, levando o que é da Bahia mas podia ser de Bissau: camarão seco, castanha de caju, amendoim e dendê de pilão. São comidas de saudade, que alimentam e alicerçam o corpo e o fato mais evidente e tão evidente que muitas vezes passa batido: o de ser de um lugar, um lugar que diz a alguém quem se é.
Eu só tinha vindo aqui dizer que a Luisa, irmã de alma e comadre, me mandou uma mensagem mostrando uns rambutans lindos que tinha acabado de ver num carrinho de mão, no camelódromo do Saara, Centro do Rio. Olha que lindos, lembrei de você, escreveu. Então esticou a mão e me deu de presente a foto que abre essa crônica. Dois punhados de ouriços entre o rosa e o vermelho, mamonas de espinhos finos e maleáveis em contraste ideal com seus pratinhos de plástico azul. Mas não me contive e aceitei o convite. E aqui estou outra vez, falando de saudade.
Ao lado deles também havia mangostões e uns poucos e belos cacaus naquela situação de cores que só os cacaus têm, imitando as peles dos jacarés, mas em vestido crepuscular. O vendedor se especializou nesses frutos sudeste-asiáticos, já que, tirando o cacau, rambutans e mangostões não são nativos do Brasil, exóticos e bem pouco familiares ao consumo comum da nossa gente.
Rambutans, por exemplo, não me dizem quase nada. Sequer os provei. Sei que são primos das lichias, que comi uma ou outra vez, maceradas com saquê, num restaurante japonês. Não conversamos o suficiente? Nos conhecemos tarde demais para que arrumassem cama e fincassem bandeira na minha constituição? Receio que sim. Fosse eu indonésio, malaio ou tailandês que faz hoje do Rio sua perene morada, ver rambutans me acordaria um mundo, o meu mundo, do fio da cabeça à sola do pé. Seriam eles minhas goiabas, saudade encarnada, rosa e com espinhos. Um susto de sentido, soprado em outra língua. Caminho de volta pra dentro.





Lendo com fome (literalmente!) e lembrando de tudo que me faz transportar de volta ao Rio. No meu caso, reencontrei aqui na Espanha uma comida que eu sentia saudades e não me dava conta (pratos que minha Ita - falecida vó - fazia). E vou vivendo de saudades nessa mistura de Brasil com Espanha.
Lindo❤️